terça-feira, 10 de novembro de 2020

Milagre da vida



Quando o dia amanhece...

Uma vida que nasce,

Outra que adormece ...

E o sentido da vida,

Você acha que conhece...

Mas quando a lágrima desce,

O coração de tudo esquece...

Só  quer uma nova chance,

Quer que tudo recomece...

Mas quando o corpo dorme,

Nada mais acontece...

E a saudade aperta o peito,

A falta dele no leito...

Então chora a criança,

Devolvendo a esperança...

É o menino que nasce,

E o milagre de novo acontece...


Jussara Rocha Souza

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Editorial Sobre a morte de #Simone Souza




Muitas pessoas indagando o que ela estaria fazendo lá, se ela não teria marcado encontro com ele e um monte de perguntas sem necessidade ou cabimento.

Ela poderia ficar nua na frente de um homem, poderia esfregar seu órgão genital nele e assim mesmo ele não teria o direito de fazer o que fez.

Parem de achar motivo para estrupador, tarado,  hoje foi ela, amanhã poderá ser você. 

Existe um maníaco solto e pode vir fazer pior, não interessa onde e com quem estava, de que maneira ela se veste.

Só de pensar no sofrimento desta menina eu sofro, imagina ela, o medo, a dor, a impotência diante de um monstro.

Justiça, eu clamo por justiça, mundo podre onde políticos falam em segurança e deixam o povo a mercê destes seres desprezíveis, juízes  macomunados com advogados que soltam estes pulhas.

Estamos com medo de trabalhar, de sair, namorar, se divertir, medo por nossos filhas, netas, mãe, irmãs, ser mulher virou motivo de medo.

Não vou calar, até que este monstro seja preso, mães não passem a mão em filhos estrupadores, denunciem, gente assim estrupa irmã, filha sem dó ou piedade.


Mulheres do meu Rio Grande, grite por Simone, grite por nós, grite por você. Se tentarem lhe calar, escreva, bata o pé, faça sinais, mas não deixe que mais mulheres venham a morrer.


Quero justiça, por mim, minhas filhas, netas, irmãs, antepassadas, mulheres.


Jussara Rocha Souza

Não nos deixe morrer




Hoje nossa terra foi manchada de sangue,

Nossas filhas foram estrupadas...

Nossa carne foi arrancada a dentadas,

Hoje cada um  de nós perdeu uma filha, irmã, menina, mulher...

Estou revoltada,

Embrulhada...

Eu não sei quem era Simone,

Não a conhecia...

Mas a sua dor hoje é minha,

Meu âmago grita por justiça...

Não deixe que eu desista,

Não nos deixe morrer...


Jussara Rocha Souza 

domingo, 1 de novembro de 2020

E agora Maria?


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Maria cresceu ali, no Bairro da Lata, lugar onde tudo era precário, saúde, saneamento, água potável, sem falar no índice elevado de pobreza e desemprego.

A superlotação fazia com que as residências fossem inseguras, juntava-se a estes fatos o crime, tráfico de drogas e o alcoolismo entre tantas outras dificuldades.

Maria cumpriu o mesmo destino da mãe, com quinze anos já carrega um filho nos braços, largou os estudos e foi morar com Pedro, a mãe pouco se importou uma boca a menos a mesa.

A vida seguia seu curso, Maria trabalhava de empregada doméstica e Pedro em uma padaria à noite, neste tempo já eram três os meninos. As dificuldades não os assustava e sim ter de criarem os filhos em meio a tanta violência, isto os deixava apreensivos.

Pedro fazia todos os dias o caminho de casa às cinco horas da manhã, hora em que Maria já estava saindo para pegar sua primeira condução, chegando perto de casa Pedro é atingido mortalmente com uma bala perdida em confronto de policiais com o tráfico.

A vida já precária fica agora duplamente complicada, ter que trabalhar, conviver com a dor da perda e ter de deixar os filhos entregues a própria sorte enquanto trabalha, está lhe tirando as noites de sono.

Olha-se no espelho e não mais vê aquela menina de dez anos atrás, o peso da vida lhe dava o dobro de idade e, no entanto só tinha vinte e cinco anos.

Diz que o tempo tudo cura e Maria foi à luta, levanta-se quatro horas da manhã, prepara almoço, escreve as ordens do dia, beija um a um e sai para o trabalho.

Espanta a preocupação e a tristeza cantando, foi assim desde pequena, sua paixão era o forró e o som animado das músicas era sua alegria durante o árduo trabalho e as conduções sempre lotadas.

Passado o tempo com as crianças já maiores e a vida em sua rotina habitual, Maria começa devagarzinho a sair e o forró passa a ser sua única diversão. Todos os sábados ela dá janta aos meninos e os põem na cama e quando adormecem fecha a porta a chave e sai.

No começo ficava apreensiva com os meninos, mas como sempre dava tudo certo começou a descansar-se e a cada dia ficava até mais tarde no forró, afinal pensava:_ Também sou filha de Deus, nem só de trabalho vive o homem!

Dentro do forró Maria transforma-se, seu rosto remoçava e dançava a noite toda sem parar, o barulho ensurdecedor da música abafava qualquer som que viesse de fora.

O temporal desaba sem piedade, a chuva torrencial e o vento vêm derrubando tudo que encontra pela frente, as paredes do barraco balançam, as crianças gritam e choram em desespero.

Maria chega à favela com suas sandálias na mão e um sorriso no rosto, mas depara-se com policia, bombeiros e ambulâncias por todo o lado, corre em direção ao barraco e só vê terra.

Um grito lhe solta da garganta, coloca as mãos na cabeça e petrificada com a cena chora em total desvario. E agora Maria?

Vozes gritam em sua direção: -Mamãe, mamãe estamos aqui!

Maria deu graças a Deus e jurou que a partir daquele dia jamais iria deixar os filhos sozinhos novamente.

Nota do autor: Diariamente crianças morrem ou sofrem acidentes gravíssimos que os deixam marcas para toda a vida por estarem sozinhos em casa sem acompanhamento de adultos.


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Lucioles( vagalumes)




A noite e seus medos,

E com eles seus exageros...

Sombras e monstros,

Ora se esvai, ora se mostram...

Em sua inocência,

Prende no vidro vagalumes...

Para que em sua escuridão,

Fossem seu lume...

Tamanha decepção,

O que aconteceu com seu lampião?

Cruel constatação...

Ninguém preso consegue iluminar,

Triste, dorme de tanto chorar...

Amanheceu,

E de novo veio a noite...

O medo seu açoite,

Olhos fechados...

Uma luz reflete seu retrato,

As pálpebras abrem devagar...

Na janela a brilhar,

Vagalumes passam a noite a vigiar...


Briller, briller les lucioles!


Só há luz, se houver liberdade...


Jussara Rocha Souza

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Flerte




Flertei com as estrelas,

Da área do meu prédio...

Achei que estava doida,

Isto deve o ser tédio...

Mas eis que de repente,

Do outro lado da rua...

Alguém displicente,

Flertava com a lua...

Um olhar no meu olhar,

Lua e estrela no mesmo patamar...

Amanhã na área vou voltar,

Entro correndo...

Calendário consultar,

Amanhã a noite eclipse lunar...


Jussara Rocha Souza

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Recordações




A casinha das flores,

No canto da esquina...

Recordações de tantos amores,

Em suas paredes...

Guarda nomes e segredos,

Rabiscados com desejos...

Foi ali, furtivos,

Trocamos o primeiro beijo..

Apaixonado,

O tempo passou...

O vento nossas juras levou,

Sentada na varanda...

Cabelos branquinhos,

Fico olhando a esquina...

O teu e meu nome escrito lá,

Casinha das flores...

Vives na memória de tantos amores.


Jussara Rocha Souza

Um sublime canto




Sentada a beira do caminho,

Já não me sinto sozinho...

É um pássaro a cantar,

Um canto de arrepiar...

Um sublime canto

São as vozes da natureza,

Me convidando a contemplar...

Embriagada de tanta beleza,

Me ponho a chorar!

Sentada a beira do caminho,

Já não me sinto sozinho...

É um pássaro a cantar,

Um canto de arrepiar...

Um sublime canto

São as vozes da natureza,

Me convidando a contemplar...

Embriagada de tanta beleza,

Me ponho a chorar!

domingo, 18 de outubro de 2020

Será que é amor?




Se teus olhos refletem a tua imagem,

Creio que vejo miragem...

De tão bonito teu olhar,

Quando neles me vejo...

 Desperta o desejo,

Da vontade de te amar...

Mas se por engano,

Os vejo em outra direção...

Me acelera o coração,

E me vem o desencanto...

Mas é breve momento,

Você me olha a sorrir...

Vai embora o sofrimento,

Será amor o que sinto?

Isso não sei...

Mas embriaga mais que absinto!


Jussara Rocha Souza

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

O fio da navalha

 



O sangue escorria no chão e misturava-se ao encardido da tábua. 

Em um canto do aposento um ser quase de cera olhava para os pulsos cortados e sorria, um riso louco, desvairado quase cômico se não fosse trágico.

Dias antes tinha dado sinais de desequilíbrio, mas como já tinha tido crises anteriores a família imaginou que ia passar.

A mãe tentou conversar, saber o que estava acontecendo, já tinham passado dias sombrios  juntas, eram amigas e a mãe acreditava que ela lhe contava tudo. Foi oferecido psicólogo e até mesmo psiquiatra mas ela recusou, vinha melhorando e aqueles tempos difíceis ficaram lá atrás, como uma lembrança ruim do passado.

Com a pandemia e a suspensão das aulas, veio a monotonia da rotina de casa, o fim do namoro e a vida batendo de frente, esfregando no rosto as dificuldades da transição entre a adolescência e a fase adulta.

Parecia ser forte, e muitos achavam  ela superior, de uma inteligência exepcional e engajada nas lutas pelas classes mais desfavorecidas, ela sempre tinha a resposta certa e saía em defesa daqueles que ela acreditava não poder se defender.

Mas então a pandemia chegou e o que os dias corridos escondiam em seu coração aflorou, a depressão cresceu e corroeu o seu interior, entristeceu os olhos da moça e fez de seu sangue uma poça. 

Será que ninguém percebeu? Há quantos dias estava trancada em seu quarto? Ratos sugavam com avidez o sangue já coagulado.

Ninguém queria acreditar que a líder da turma, a defensora das causas feministas, a menina que iria mudar o mundo perdeu sua própria luta.

Morreu sorrindo desafiando a morte como desafiava a vida.

Pobre menina seus sonhos eram tão grandiosos e não aguentaram uma sociedade podre e injusta e tão pequena para ela.

Você achou horrível este relato? Mas ele acontece todos os dias com pessoas de todas as idades.


O vírus mata mas a angústia de não conseguir mudar o mundo transforma sonhos em dor e pode matar.

É o fio da navalha...


Jussara Rocha Souza

terça-feira, 13 de outubro de 2020

sábado, 10 de outubro de 2020


 Crônica 


Será que sempre voltamos ao início 


Não sei a razão, mas ficamos condicionados desde a maternidade a alguém. Primeiro a necessidade de alguém para alimentar, vestir ou cuidar por sermos incapazes, depois ao longo do crescimento continuamos condicionados a alguém e quando vimos estamos apaixonados e por mais individualistas que somos lá vem a paixão e sobrepõe a razão. 

Mas voltamos ao condicionamento e suas razões ou não razões, e se chega a adolescência revoltados, idealistas e nossos pais passam a ser tudo que impede nossa liberdade. Morar sozinho, viajar, escolher quem eu quiser para amar ou viver.

" Nunca irei me condicionar a alguém "

E cá estou casado com filhos e condicionado a uma vida que disse jamais querer para mim, e lá se foram vinte e poucos anos.

O que nos leva a outros caminhos, a vida ou nós mesmos. Hoje me pergunto cadê o idealista, o revoltado, que iria mudar o mundo.

Então se vão cinquenta e nove anos e onde você está? Me pergunto: o que me fez mudar? E como na maternidade continuo condicionado à alguém, será medo? 

E você?

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Me deixem em paz com meus cabelos brancos




Revoltada com uma sociedade machista e a falta de empatia de mulher para mulher.

Tenho cabelos brancos, porque decidi querer não mais pintar, me acho linda com meus prateados. Mas todos dias recebo comentários  de como: como envelhece cabelos brancos, vai pintar estes cabelos, queres que te compre uma tinta?

E o pior que a maioria dos comentários vem de mulheres.

Não gosto de maquiagem, raramente uso batom e lápis de olho, não decidi isto hoje, não uso desde jovem. Estes dias uma amiga disse para mim, tu nem parece mulher, não tem vaidade, não usa salto, não usa maquiagem e não pinta os cabelos. 

Gente sou muito mulher, não preciso de certas coisas para provar isto.

Tenho um corpo legal pra minha idade, sou cheirosa e sei ser muito sensual se quiser.

Não estou neste mundo para provar nada a ninguém, amo minhas rugas, sou jovem na mente, sempre procurando novos conhecimentos.  Tem aspectos sim que eu gostaria de melhorar e não seriam estéticos e sim necessários, mas me falta dinheiro. 

O que me revolta é tu ser dispensada de uma vaga de serviço por não se adequar aos padrões de beleza, tu ser apontada como velha por não querer tingir o cabelo, ou te acusar de não gostar de ser mulher por falta de um salto.


Para tua informação minha beleza está na alma e desta sim, não abro mão. 

Amo uma langerie bem sensual, um perfume bom(sem exagero), um óleo no corpo.

Mas nada me chama mais atenção de um olho no olho e uma conversa pra lá de interessante.

Mas isto só diz respeito à mim.

Portanto você, seja como queres e me deixe em paz com meus cabelos brancos. 


Jussara Rocha Souza