terça-feira, 13 de outubro de 2026

Navegar é preciso

 Acrílico sobre madeira 

Jussara Rocha Souza 


Em meio a natureza

 

Embasbacado de beleza
Tocando a areia morna
Lábios da onda retorna

O mar convidativo
Encanta o nativo
Com suas redes a pescar
Corpo e alma alimentar

Crianças alvissareiras
Em meio a areia
Constroem castelos
Unem elos

Aqui quero ficar
No mar
Para sempre morar
Nele hei de navegar

Então em minha velhice
Guardar o som das marés
E deixar os olhos da alma
Contemplar  o mar em calma!

Jussara Rocha Souza





Enredando-se nas ruas( vícios)



O coração apressado
Barulho de tacos
O som nas pedras
O bater de pernas

O medo da rua
A solidão da lua
A mulher nua
A vida crua

Caiu na rede
Bebeu com sede
Os sonhos coloridos
O sangue a terra tingindo

A bailarina tropega
Ponta do pé esfrega
Sapatilha de pele
O algoz,  consorte

Lábios rachados
Dedos queimados
Lançou a sorte
Conheceu a morte!

Jussara Rocha Souza 

Navegando

 Se a vida é um mar, seja ele de rosas ou temporais, quero continuar navegando!


Navegando

Acrílico sobre madeira 

Jussara Rocha Souza


Violeta




Acrílico sobre madeira

Autoral 


Jussara Rocha Souza

Devaneio ou divagando




Ontem brinquei de saudade, me vesti de passado, ensaiei um bailado e de ti em mim revi.

Então não pude resistir,  beijei tua boca, acariciei teu corpo e em uma ânsia louca, amei!

Era tudo tão real, o beijo, a música e até o anel, veio aos poucos, surgindo no tempo, como um filme ilusório, mas atemporal.

Gosto de me sentir assim, protagonista de uma saudade  infinita, melancólica, sim, desta incógnita aventura.

Sair de mim por vezes é uma dádiva, deixo o pensamento viajar e te desenho com todas as cores,  aromas e sabores que inventar.

Sinto teu gosto e de ti desfruto, então bebo de teu íntimo mais profundo,  vou ao fundo e quase sem força submerso no teu universo, respiro e venho à tona!

Então acordo,  saciada de saudade esbanjando irrealidade!


Jussara Rocha Souza

Árvore

 



Serei eu árvore de raízes fortes, bela, altaneira e com flores de toda sorte.

No inverno enfrenta chuvas torrenciais, temporais, ventos passam levando meus triste ais.

Mas sou árvore,  tenho raízes fortes...

Então chega a primavera,  me visto de cores, aromas, sabores.

Por vezes alguém rouba meus galhos, me podam, e até minhas flores desfolham. 

Mas sou árvore,  tenho raízes fortes...

Com o verão, vem o sol, o astro rei que dá luz, faz-me respirar, também queima, assola e de sede faz chorar.

Mas sou árvore,  tenho raízes fortes...

Enfim chegou o outono,  caem as folhas,  me visto de amarelo,  dou vida a fotografias, sou paisagem,  viro poesia...

Mas sou árvore, tenho raízes forte em breve volto a brotar!

Então chegou uma nova estação,  até então desconhecida. Com machado, tratores arrancaram minhas raízes e aonde havia um coração,  restou um profundo abismo.

Pensei ser árvore,  de raízes fortes, mas não sabia me defender da tal evolução!


Jussara Rocha Souza

Ainda lembro...

 



A linha tênue entre passado e presente 

Se faz forte e permanente

Disfarçada por coragem

Encarcerada por uma personagem


É como um lago que secou

Os pés feridos que nele pisou

São cicatrizes sanguinolentas 

Que a alma atormenta


Se faz forte a verdade

Quando mostra a crueldade

Do viver sem fantasia

Na memória da guria


Olhos 'pintados' de roxos 

Colorem o triste rosto

Hoje pintados em telas

Em exposições caras


Ao contrário das histórias 

Aqui a fera

Mata a bela!


Jussara Rocha Souza

Um afago na alma

 



Deixe que eu percorra tua alma

E assim com calma

Te acaricie com meu olhar

Com as pontas dos dedos te tocar


Beber de tua essência 

E  em minha indecência 

Percorrer teu âmago 

Me deliciar em afagos


Como mortais que sois

Matérias que o tempo corrói 

Quero-te em espírito 

Neste meu eu lírico 


Deixando a brisa

Que ao calor ameniza

Lamber de tua beleza espiritual 

Dando vida a este pobre mortal!


Jussara Rocha Souza

Tempo




Queria agarrar o tempo, fazê-lo parar e pedir mais um tempo para aqui poder ficar.Na correria da vida, com responsabilidades, lambendo feridas, esqueci-me de ver as flores, o céu e suas cores.Era tanto trabalho, roupas, filhos, lavando assoalho, a patroa exigente, o corpo que não podia parar... e as belezas da vida eu não vi passar.O tempo não pode voltar, mas cada minuto que tenho de vida vou apreciar. Chorar com o céu estrelado, vibrar com cada flor que desabrochou... Vou amar sem medidas, porque o tempo envelheceu o corpo, mas não o coração de menina!

Jussara Rocha Souza

Ela não mora mais aqui.




Me desculpa por não mais te amar. O desamor dói tanto quanto o amar sem ser amado. Eu juro que tentei. Foram anos tentando ser vista, admirada, amada, mas você nunca me olhou de verdade.Eu te via olhar para outras mulheres e me sentia desrespeitada, humilhada. Tinha vontade de partir, mas não havia coragem; eu tinha esperança de que você mudasse.E assim passaram os anos. Eu envelheci, os sonhos ficaram esquecidos e, então, você resolveu que gostava de mim, que precisava de mim e que iria morrer se eu te deixasse.Mas, infelizmente, você chegou tarde. E foi você mesmo que se matou quando matou friamente meus sentimentos, quando fez eu me achar feia, me achar menos, quando passei noites chorando enquanto você fingia dormir.Você matou a menina, a mulher. Assassinou cruelmente um coração que te amava. Já faz muito tempo que não vivo mais aqui; aqui tem apenas um corpo, porque eu há muito parti. Felizmente, esta mulher não mora mais aqui!


Jussara Rocha Souza

Obrigado mãe por você ter sido ruim para mim

 



Eu não sei quem foi minha mãe,  conheci apenas uma mulher que sempre foi seca comigo, nunca me deu um colo, um abraço. 

Dizia que eu era muito feia, que não queria que eu tirasse foto com meus irmãos pois iria "queimar o retrato"

Sempre me jogou na cara que tentou me abortar e que eu de ruim tinha nascido, que eu era tão feia que a parteira se matou na hora do parto.

Isso dói,  marca, mas ela sem saber me ajudou a ser melhor, melhor que ela, sou uma mulher forte, que chuvas e vendavais nunca me derrubaram,  criei meus filhos com muito amor, com onze anos fui trabalhar de doméstica em Porto Alegre,  cuidei dela e de meus irmãos quando meu pai nos abandonou, cuidei dela até ela falecer e nos últimos dias falou que eu não era filha dela.

Mas tive uma casa, um abrigo para morar, frio, sem carinho, mas não era rua. Ela com sua amargura me fez forte, bondosa, e que ajudar aos outros me faz muito feliz, sou mãe de tantos quantos precisam de afeto.

Hoje já com idade, tento compreender ela, talvez nunca tenha conhecido o amor, talvez fosse doente mental, ninguém sabe o que cada um leva no coração. 

E eu sobrevivi ao aborto, a falta de amor, ao patinho feio, Deus me deu uma família de sangue, outras tantas adotivas, tias, primos, vizinhas, sobrinhos, irmãos. Tenho uma família universal de amigos, filhos de coração,  sou muito amada e tento retribuir a todos da mesma forma!


Mãe onde estiveres saiba que não fostes minha referência, mas me ensinasse a ser forte e a perdoar!


Jussara Rocha Souza

Orla da Henrique Pancada

 Orla da Henrique Pancada 

Acrílico sobre madeira


Jussara Rocha Souza