terça-feira, 29 de outubro de 2024

Elegia




Silêncio seu moço 

Que a vida está osso

O amor vai morrendo 

Os sentidos empobrecendo


Tudo parece normal

O cruel é banal

Eu não me conformo 

E então morro


Morrerei de qualquer maneira

Sem eira ou nem beira

De fome, amor ou educação 

 As mãos amarradas da corrupção 


Silêncio seu moço 

Falar é corda no pescoço 

Foi suicídio diz o jornal

Suicidou-se com as mãos do Sr mal


Hoje se morre todos os dias

Sangue, celular e fotografia 

Celebrando a elegia

Morre o poeta e a poesia!


Jussara Rocha Souza

Não fui preparada para a morte

 Não fui preparada para a morte



Eis-me aqui

A ferida aberta

Da noite escura

De terrores descoberta


Eis-me aqui

Ferida cicatrizada

Nunca esquecida

De dores supurada


São versos doídos 

Do medo construído 

Da dor da impunidade

De quem bate e é absolvido 


Sou náufrago 

Resgatado do mais profundo oceano

De águas escuras e lamacenta

Que extinguiram minha essência 


Fui então presa

De abominável criatura

Matou a vida, doente

Roubou minha doçura 


Me dizem para esquecer

Como? se a ferida sangra

E o sangue ainda sinto escorrer

Desculpe, se não quero ser forte


Não fui preparada para a morte!


Jussara Rocha Souza

Jardim da alma




Entrei com passos silenciosos 

A casa parecia vazia

Havia pequenos rasgos

Algo lá dentro ainda feria


Cuidei para não machucar

Mas confesso havia intenção 

Não queria te assustar

Apenas ganhar teu coração 


O temporal tinha feito estragos

Agora qualquer tempo é tempestade 

A dor sorvida aos tragos

Causou deformidades


Passos meticulosos 

Um olhar doce

A vida querendo gozo

Talvez ainda precoce


Então fui embora de mim

Quem sabe em outra primavera 

Talvez esta dor tenha fim

O passado seja quimera 


Retiro-me

Passos silenciosos 

Devolvo meu ser a mim

Já posso cuidar de meu jardim!


Jussara Rocha Souza

Será a chuva?




Estas paredes lilases

Testemunha de risos e amores

Em um cômodo vazio

Corre o tempo

Lento como um rio

Móveis imaginários 

Feitos em desenhos de giz 

Em paredes segregadas

Batia um coração feliz

As violetas na janela

Espiavam os moleques na calçada 

Bola, amarelinha, pedras nas vidraças 

Um olhar furtivo

Amores inocentes

Balas de anis

No sótão gemem os amantes

Minha musa

Que se despe de virtudes

Lhe tiro a blusa

Entre tintas e pincéis 

Barriga vazia

E a melodia!


La Boheme.... Lá, lá, lá...


Jussara Rocha Souza

Solidão de sentimentos

 



Vivia só 

Não a solidão de um ser sozinho

Era a solidão de sentimentos 

Daqueles que se perdem com o tempo

Como no temporal em busca de abrigo

Na casa destelhada 

Fingindo estar acolhida 

Se sentia vazia

Triste

E a cada dor algo se desfazia dentro de si

Então compensou a solidão 

Com arrumação 

Arrumava casa noite e dia

Mas depois viu que esta não arrumava coisas do coração 

Então para cada dor, ela de objetos se desfazia

Até que a casa então ficou vazia.


Jussara Rocha Souza

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Saudades é conversa animada

 



Queria que estivesses aqui

Com este sorriso bobo de guri

Quero te contar que ainda resisto 

A luta é brava, mas insisto


Hoje tocou a nossa música 

Dancei de forma lúdica 

Enlaçada no porta retrato 

Deslizei em teus braços 


Saudades é conversa animada

Entre a ausência, você e o passado

Entremeios choros e recordações 

Um turbilhão de sensações 


É chuva que não cessa

O amor que não mais regressa

É você que não vai mais voltar

É a saudade a me acompanhar 


O coração resiste

Mesmo sendo triste

Venha vamos dançar 

Enquanto houver música e poesia

Não haverá morte e nem dor 

Só a lembrança deste nosso amor


Jussara Rocha Souza

Paz

 Acrílico sobre madeira 


Deserto

 Acrílico sobre madeira 


Sozinha




Eu vivo a solidão dos ausentes

Daqueles que tudo sentem 

Do amor não realizado

Da canção inacabada


A solidão da rua deserta

Do beijo na hora incerta

Das vontades reprimidas

Das dores tão sofridas


A solidão das noites insones

Dos bares, amigos anônimos 

Do choro e o riso

Do desequilíbrio convulsivo


Eu vivo a minha solidão 

Do interior de meu coração 

Repletos de segredos guardados

Escritos em tristes versos


A solidão das mariposas

A mesma de muitas esposas

É um só na solidão 

É a solidão em meio a multidão 


A noite se despede

A lua então adormece

A solidão me abraça 

E o olhar embaça 


Então começa um novo dia!


Jussara Rocha Souza

Almoço de domingo (drama)



Era um domingo como todos os outros, levantou no horário habitual, fez a higiene, tomou o café e foi para a lida doméstica.

Ia tirar o pijama antes, mas pensou: não vem ninguém estranho aqui mesmo e prosseguiu.

Colocou roupa no varal, fez o almoço e sentada a beira da mesa no seu tradicional almoço de domingo, começou a rir alto, cada vez mais alto.

Um silêncio sepulcral se fez, os filhos que riam, bebiam, comiam e falavam entre si, calaram.

O marido sempre compenetrado em suas conversas sobre carros e outras modalidades esportivas, branco como papel olhava para a mulher fora de si.

Ela levantou e de repente perguntou? Alguém vai querer sobremesa? Todos responderam que sim e a balbúrdia voltara em volta da mesa.

A mulher então levantou, caminhou até o meio da cozinha, enfiou a mão no bolso do avental, tirou uma arma e deu um tiro na cabeça!


Jussara Rocha Souza

sábado, 31 de agosto de 2024

Me recuso a matar o amor




Mataste o amor?

As ilusões e dores?

Pois saiba

Que eu me recuso a matar as ilusões, romances e almas gêmeas 

Pois há no amor um encantamento 

E mesmo quando dói é sentimento

Eu me recuso a deixar de sentir

Quero continuar a sonhar

Embevecida ver o nascer do sol

As flores no arrebol

E as estrelas no céu a brilhar

Quero amar 

E quem sabe neste sonhar

Não tenha uns olhos a me observar!


Jussara Rocha Souza

Olhos d'água

 



Ela tinha os olhos d'água 

Carregados de emoção 

Molhados de lutas

Agora tréguas 

Somente gratidão 

De tanta abundância 

Sofreram inundação!


Jussara Rocha Souza

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Tempestade na alma




São temporais

Estações do ano

São seus ais

Como trovões retumbando


É o cotidiano 

Pessoas correndo

Entra e sai ano

Até esquecem que são humanos 


Ela dizia que sentia

Ninguém a ouvia

Em silêncio gemia

Passava noite e dia


Cultivava flores

No coração dores

O jardim colorido

A alma sucumbindo 


Até que silenciou

No jardim tombou

Seu corpo como flor 

A terra tomou


 Sua alma finalmente se libertou!


Jussara Rocha Souza 


Nota do autor: Não deixe que o outro fique invisível, o amanhã pode não existir.

Preste atenção aos sinais, o mundo está doente e precisa de socorro.

Faça você a diferença, não podemos salvar o mundo, mas podemos salvar nosso próximo, porque um dia, você pode ser o próximo.