quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Silêncio




Queria tanto poder dizer

Das dores do meu viver

Destas que machuca

Sem ninguém ver

Não há hematomas na pele

Há sangue no coração 

Cicatrizes profundas nas mãos 

Machucadas pelo medo de dizer não 

É um sofrimento constante

Como se a gente não fosse gente

Vem de muitos andares 

Pedras e tropeçar 

É o lamento dos loucos

Dos que não sou ouvidos

Do grito preso na garganta 

Com seu íntimo em gemidos 

É o silêncio dos oprimidos 


Jussara Rocha Souza

Abandono

Pensei em jogar fora tintas, pincéis 

Rasgar meus papéis 

Não quero mais escrever

Bordar ou pintar

Já não há prazer 

No versejar 

O amor esfriou

As palavras já não acalentam

Elas ferem

Cortam como lâminas afiadas

Pensei um dia ser poeta

Até mesmo artista

Quanta soberba

Descobri que não sei fazer arte

Porque tenho coração 

E este não sabe viver de razão!


Jussara Rocha Souza 

Infância roubada




Dorme em mim uma menina,

Com sonhos presos

Em uma infância contida

Em um lugar longínquo 

Da memória 

Chamado saudades

Pés descalços no barro vermelho

No sobe e desce

Desgrenhado cabelo

Carrega jarros d'água 

Com ele mata a sede

Lava mágoas 

Carrega o peso de ser adulta 

No corpo de uma criança 

Chora e sorri

Com a chamada esperança 

Conhece o medo 

E mesmo sem ter conhecimento 

Faz parte do tal enredo 

Dorme menina, dorme...


Jussara Rocha Souza 

Tempo me sussurrou...




O tempo implacável 

Me sussurrou: 

Precisas viver 

A vida é inegociável 

Surpreenda-se 

Deixe os afazeres para depois

Você carregou vida no teu ventre

Deu seu corpo

Foi abrigo

Sustentou

Amou

Se doou

Agora é com você 

Liberte-se

Disse o tempo

Eu passo muito rápido 

E você não é eterno

Mas este momento pode ser a eternidade de um dia!


Jussara Rocha Souza 

Desertos




Atravessou desertos

Com passos leves

Porém cansados

Os cactos

Haviam dilacerado a carne

O solo árido

De tempos fechados

Sangue nos rios

Sombrios

As marcas

Deixou pelas estradas

Rastros do que viveu

As do corpo

As guardou na alma

Delicado

Sorriso no rosto 

De quem bebe com gosto 

O tempo que lhe restou

É como as rosas 

Belas flores

Embora os espinhos

Lhe causem dores!


Jussara Rocha Souza 

A poesia fez o poeta: vives em mim

 



Quando penso em ti

Penso que não sou poeta

É a poesia que se faz em mim

Das flores no jardim

No cheiro do alecrim 

Desta saudades que deixaste por onde passavas

Na boca que beijavas

E nesta prosa poética 

Te vejo nas letras que componho

Quando te ti desfruto em sonho

És a canção no rádio a tocar

No riso frouxo no ar

Da paixão furtiva no olhar

Então me embriago

De poesias

E me faço poeta

Me sinto completa

E de saudades tua repleta!!!


Jussara Rocha Souza