domingo, 28 de setembro de 2025

Lenda e magia do além mar


 Olho o mar

Pensamentos a navegar

Quantos segredos tuas águas guardam em tuas profundezas?

 O canto de tuas ondas 

sussurram-me poesias.

Embalando barqueiros em noites de lua cheia.

Exalando o sal dos mares.

Em suas redes pesqueiras 

Golfinhos brincam com sereias. 

Contam lendas ao redor das fogueiras

 Um balé encantado.

Por oceanos navegados. 

Águas que abraçam ao sabor de tuas marés 

Águas que molham rostos

Tomados de fé 

Água que dá a vida

Que pede socorro 

Quando atingida

É poesia que canta

Dos mares a realidade

E a magia

Jussara Rocha Souza 

Felicidade



Hoje acordei girassóis 

Esfuziante 

Repleta de luz

Não é sempre assim

Mas o que importa 

Abro a porta

Deixo a vida me invadir

O sol entrar 

E eu quero me permitir

Bebo até a última gota

Deste opióide

Chamado felicidade!


Jussara Rocha Souza

Oleiro



Sentado no terreiro 

Mistura o barro o oleiro

Ao longe denso nevoeiro

No coração espera por Janeiro


Confere o jarro

Imagina sobre a mesa

Flores de amoreira

E a tal sobremesa


Precisa se apressar

Já é primavera 

Deixou a vitrola tocar

E o cigarro na carteira 


Olhar percorre estrada afora

O barro nas mãos a secar

Espera pela senhora

Que prometeu voltar


A  mesa repleta de louças 

O oleiro não percebeu

Que janeiro a muito passou

Verão e inverno já chegaram


Volta ao terreiro 

Madrugada

Esculpe a amada

E jura que é Janeiro

O pobre oleiro!


Jussara Rocha Souza

Palavras da alma



Te acaricio com delicadeza

Para que não toque em tua beleza

Poderias ser diferente 

Mas escolheste ser benevolente 


Tua jornada na terra

Caminho de pedras na estrada

Um corpo muito fraco

Um coração gritante no brado


Se o corpo falha

A alma fala

Responde com escrita

A dor que o corpo grita


Há um que de horror

Na tal desafiadora dor

Mas a alma a silencia

E com amor a alivia


É só mais um dia!

Jussara Rocha Souza 


Tenho plantado muitas flores

Persisto no plantio

Mesmo em dias frios

E quando o dia se faz noite

E a dor bate como açoite 

Uma semente se abre

Volta a florir

E eu a sorrir!


Jussara Rocha Souza 

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Aridez




Sentei na soleira da porta

E com lágrimas nos olhos

Perguntei a ele

Será que você me escuta

Porque um dia eu não quis te escutar

E sofri tanto que até hoje só de lembrar ainda dói 

Dói tua ausência 

Dói tua dura essência 

Sorvi então um mate

E de arremate

Te pedi perdão 

É que pai esta selva

Está que nem sertão 

Árida, seca, dura

Espinhos por toda parte

Parece até cactus

Baixei os olhos a terra

Envergonhada 

Então chorei!


Jussara Rocha Souza

Pintando vida com lápis de cor



Não sei quem tu és 

Nem sei quem eu sou

Brumas no mar

Respingos de sol

No ar

Talvez gotas no oceano

Serei eu este engano

Lágrimas de dor contidas

Por detrás do espelho escondidas

A maquiagem do dia a dia

A mentira da alegria

Mas o que te importa

O que sou

Se nem mesmo eu sei

Se riso da dor 

Da máscara atrás da porta 

Se desta vida torta

Me desconheço 

Serei eu 

Esta moça triste

Com um sorriso em riste

Desafiando a dor

Pintando vida com lápis de cor!


Jussara Rocha Souza

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

O mar em revolução

 Minha participação na 50°Feira do Livro!



Ondas dançam um balé revolto, raivoso.

Descendo rios abaixo, invadem casas, calçadas

É uma cantiga de dor

São as águas e suas mágoas

Grito calado

Daquele que foi atacado

Em sua natureza atingido

De vermelho tingido

É o grito dos inocentes

Dos oceanos, mares e fontes

É o lixo em seus embriões

As redes abortando gestações

É o mar e sua cantiga de protesto

A enchente seu manifesto

Era para ser poesia

O mar abraçando a maresia

Sussurrando ao vento

Cantilena

Hoje é mágoa, dor e águas

Vertidas em lágrimas.


Jussara Rocha Souza

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Saudades



Sentei no banco frio do meu coração 

E falei com minha saudade

Ah! Como estava bonito

O rosto, o sorriso 

Tudo era lindo

Eu sentia sua presença 

Contei a ele sobre meus dias

Das tristezas e alegrias

Lembrei das nossas manhãs 

O café sorvido com gosto e risos

Nossos segredos 

Noites de amores

Estações 

A vida latente

Os corpos quentes 

Minha saudade

Me olhava profundo 

E ali vi que residia

Todo meu mundo

Sinto teu gosto na boca

Da ânsia louca

Que esta saudade

Virasse realidade!


Jussara Rocha Souza

Brincando de sonhar




Era um dia qualquer de inverno

A chuva caia mansa 

O corpo pedia cama

E a alma calma

Desfrutava de uma dança 

Nossa Londres riograndina

Ainda dormia 

Quando o barco sumia

Em meio a cerração 

Fiquei parada no cais 

Vendo sumir a embarcação 

Já se passaram tantos invernos

E você não volta mais não 

Não sei se lenda ou ilusão 

Talvez um boto encantado

Resgatou teu coração 

Ou foi cantar com sereias

Em meio ao nevoeiro

Só sei que continuo aqui

Ouvindo as ondas cantarem

Em minha Londres riograndina

Em meio ao caos

Tentando ser menina

Brincando de sonhar!


Jussara Rocha Souza 


Créditos da foto( conexão Rio Grande)

Vaidade



Ele tinha pele de sol

Olhos de mel 

E todo aquele toque 

Pra lá de especial


Dizia palavras soltas

Que flutuavam aos ouvidos

Tinha o dom das palavras 

Faziam parecer de sua lavra


Passou por minha vida

Como um meteoro

Deixou rastros

E estilhaços


Deve andar por aí 

Dizendo palavras soltas

Encantando outros corações 

Plantando ilusões 


Eu amava ser enganada

Fingia que acreditava

Assim desfrutava de você 

E de ti sorvia de completo prazer


Você foi como chegou

Pele de sol

Olhos de mel

E sem poder confessar

Para  tua vaidade

Que alguém também te enganou!!!!


Jussara Rocha Souza

Cantando na chuva( delírios da madrugada)



Servi uma xícara de café e fui sentar à beira da janela. Os pingos da chuva batiam na vidraça como se cantassem uma canção ora melancólica, ora brava...

Convidativa, ela me chamava.

Coloquei um disco na vitrola e assim meio moleca, completamente molhada dancei e cantei na calçada.

Loucura, talvez seja, um Gene Kelly feminino, cantando na chuva.

Até agora estou relembrando aqueles momentos, cantei e dancei até cansar, agora estou aqui, tapada no sofá, com febre e completamente rouca...

A vitrola continua a tocar agora um clássico romântico, então sinto você me beijar e convidar para a dança...

Devo estar delirando, não há você, somente eu, a vitrola e a chuva lá fora.

Espero que meus delírios não inventem encenações mais ousadas ou atípicas, pois irei presa ou vou morrer.

Fui, está na hora de dormir!!!!


Jussara Rocha Souza

A minha memória



Não deix


es que me esqueças. 


Mesmo quando meus cabelos embranquecer 


Dos dias de infância. 


Brincadeira de criança. 


E de tantas histórias contadas.


A alegria do descobrimento. 


Que me sirvas de alento.


E eu possa relembrar os momentos. 


Antes que a memória esmoreça. 


Não deixes que eu me esqueça. 


Da moça de cabelos negros.


Franja caída na testa.


Do moço à espreita.


Dos amores fugidios. 


Por vezes arredio.


Que causavam arrepios. 


Que a vida seja bondosa.


Com minha memória amorosa.


Que eu não me esqueça de mim.


Para que eu possa continuar a lembrar de ti!


Jussara Rocha Souza.


Jussara Rocha Souza

A casa da tristeza

 Prosa



Um dia a tristeza fez morada em uma casa abandonada. Ninguém sabe como ali se instalou, talvez fosse naquele dia em que alguém o magoou e ele por educação ou medo se calou. Aos poucos viu a sua auto estima se apagar, escondido com desculpas a si mesmo, foi ficando para trás. Mas quem liga?

No mundo corrido, ninguém tem tempo pra ninguém, são tantos afazeres, trabalho, família, dinheiro, faculdades, compromissos, será o mundo ou é mais fácil ser omisso?

Entre tantas ausências, a tristeza se instalou, beijou a boca da angústia e em um coração ferido fez morada.

Era só uns dias, vai passar, mas não passou, a solidão das noites vazias, as lágrimas escondidas e a vergonha de dizer que não conseguiu.

Hoje a tristeza partiu, deixou na casa vazia só um rastro de saudades, janelas e portas foram fechadas, não deixe a tristeza se instalar em sua casa, ela só é bonita em poesias.


Jussara Rocha Souza

A te esperar

 



A xícara sobre a mesa parecia estar à espera do café a ser servido...

Na cozinha, o cheiro do pão feito em casa exalava por todos os cômodos, dando a sensação que em breve alguém iria saboreá-lo.

A chuva molhava a vidraça que embasada pelo fogo do fogão a lenha tirava a visão lá de fora, ela sentou na cadeira de balanço e começou a entoar uma canção.

Enquanto cantava, lágrimas escorriam pela face, este ritual já durava muitos anos, a xícara sobre a mesa, o pão feito em casa e a canção entoada a beira da janela.

Uma caixa de madeira sobre o colo nela seus guardados, lembranças de um passado, o amor ali em fotos contado.

De repente a porta se abre e ele entra, beija seus lábios com tamanha saudades, choram abraçados e ali ficam até a madrugada.

Ela nada pergunta, está feliz demais com a volta, naquele amanhecer o fogão não foi aceso, a xícara continua sobre a mesa e o pão permanece dormindo na forma.

O sol bebeu o sereno das vidraças, iluminando a face da velha senhora na cadeira de balanço, que enfim para sempre junto dele adormeceu!


Jussara Rocha Souza