Eu vi minha mãe votar em quem meu pai dizia para ela votar. Vi meu avô paterno dizer que mulher não tinha pensamentos próprios e que política era para homens. Minha mãe e minha avó votavam em quem seus maridos escolhiam.
Eu apanhei uma bofetada no rosto por falar, na mesa de almoço: “Ele vai voltar”. Naquele dia, compreendi o que era a ditadura e o quanto a pressão familiar obrigava a mulher a ser submissa.
Os tempos mudaram, as famílias não são as mesmas e muitos direitos foram conquistados. Mas por que, então, algumas de nós parecem dispostas a retroceder?
Como podemos entregar nosso voto a alguém que despreza e diminui as mulheres, que faz discursos machistas, que deixou morrer tantos filhos em uma pandemia cruel e ainda debochou daquela situação? Tenho a sensação de que algumas não aprenderam nada com a nossa própria história.
Tantas de nós foram mortas por homens cruéis e violentos. Como podemos apoiar quem repete discursos semelhantes, quem defende um único tipo de religião e se apresenta como defensor da moral e dos bons costumes — mas apenas dos seus? Porque não respeitam as ideias, as escolhas e o modo de viver de quem pensa diferente.
Tenho quatro filhas e as quero livres, com pensamentos próprios. Lutei para isso. Fui vítima de violência doméstica, e me dá medo imaginar minhas filhas e netas vivendo em um país governado por homens que não respeitam as mulheres.
E o que mais me incomoda é ver tantas de nós defendendo aqueles que, novamente, querem limitar nossa liberdade de pensar, escolher e decidir.
Mulheres, abram os olhos enquanto é tempo. Leiam, estudem, procurem fontes sérias e tirem suas próprias conclusões. Não entreguem a ninguém aquilo que tantas lutaram para conquistar.
Por favor, não retrocedam.
O mundo lá atrás foi cruel demais para nós. Eu não quero voltar para ele.
Jussara Rocha Souza
A imagem é de mulheres que lutaram pela liberdade de votar em quem elas quisessem votar!

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